A Lixomania é uma banda lendária do punk rock brasileiro, pois foi uma das pioneiras do movimento no país, ao lado de Olho Seco, Cólera e Inocentes, entre outras.

A banda foi formada em 1979, no bairro do Lauzane - zona norte da cidade de São Paulo (SP) -, pelos amigos Adauto (baixo), Tikinho (guitarra e vocal) e Zú (bateria). Depois entrou Alê, que assumiu os vocais. Todos gostavam de Sex Pistols, Ramones, The Clash, Stiff Little Fingers, UK Subs, Dead Boys, Sham 69, Lurkers e muitas outras bandas.

Além da música e da atitude, um de seus grandes méritos é o de ter ajudado a desbravar o caminho para o surgimento de uma cena punk no país, que ainda vivia sob a censura e as leis impostas pelo regime militar do general Figueiredo. Nessa época, a imprensa e a mídia brasileira ainda não haviam descoberto o punk. Isso só veio a acontecer em 1982, refletindo o renascimento do movimento no exterior, com Exploited, Discharge, Dead Kennedys, Black Flag, etc.

O ano de 1982 foi muito importante para a Lixomania. Com a saída de Alê, Moreno (um antigo simpatizante da banda) assumiu os vocais, enquanto Miro (ex-Guerrilha Urbana) substituiu Zú na bateria. É com essa nova formação que a Lixomania gravou o EP “Violência e Sobrevivência”, lançado em setembro de 1982 pelo selo independente Punk Rock Discos, de São Paulo, sob direção e produção de Carlos Marçal Bueno, cunhado de Betão, amigo e simpatizante da banda.

Hoje, esse EP contendo 6 músicas (Violência e Sobrevivência, Massacre Inocente, O Punk Rock Não Morreu, Zé Ninguém, Fugitivo e Os Punks Também Amam) é disputado por colecionadores de discos punks em razão de seu pioneirismo: foi o primeiro disco de uma banda punk lançado no Brasil, precedido apenas pela coletânea “Grito Suburbano”, que reunia 3 bandas de SP.

A capa do EP foi feita a partir de uma colagem de manchetes de jornais que retratavam a violência e criminalidade no país. O trabalho de arte é creditado ao escritor Antonio Bivar (autor do livro “O que é Punk”), Fernando Santa Rosa e Lixomania. Os temas das músicas são a violência (“Violência e Sobrevivência” e “Massacre Inocente”), as injustiças sociais (“Zé Ninguém” e “Fugitivo”) e o próprio movimento punk (“O Punk Rock Não Morreu” e “Os Punks Também Amam”).

A exemplo da Lixomania, várias bandas punk desapareceram (algumas sem deixar qualquer vestígio de registro sonoro) e outras continuaram restritas ao circuito “underground”. O novo cenário musical passou a ser dominado pelos ícones do chamado BRock (Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Capital Inicial, Ultraje a Rigor, etc). No entanto, a Lixomania e as bandas punks de SP já haviam deixado a sua mensagem. Pelo menos com relação às letras, pode-se perceber ecos do inconformismo e irreverência punk em músicas de sucesso como “Inútil” (Ultraje a Rigor), “Polícia” (Titãs), “Que País É Este?” (Legião Urbana), “Veraneio Vascaína” (Capital Inicial) e “Até Quando Esperar” (Plebe Rude), entre outras. Sem falar em bandas como Camisa de Vênus e Replicantes, claramente inspiradas no punk.